terça-feira, 25 de março de 2014

Intervenção do Secretário Regional dos Recursos Naturais

Texto integral da intervenção do Secretário Regional dos Recursos Naturais, Luís Neto Viveiros, proferida hoje, em São Roque do Pico, na apresentação pública do Programa de Comemorações dos 10 Anos de Classificação da Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico como Património Mundial:

“Constitui para mim um enorme orgulho, enquanto governante e principalmente como açoriano, poder estar hoje convosco na apresentação de um programa de comemorações que assinala a data em que mundialmente foi reconhecida uma herança de engenho e tenacidade que a todos nos honra!

Numa ilha com o solo petrificado por sucessivas erupções vulcânicas ao longo de milhares e milhares de anos, os povoadores não encontraram condições para o cultivo do trigo, principal alimento introduzido nas ilhas que iam sendo descobertas.

Cedo, os nossos antepassados perceberam que esses solos basálticos, associados às condições climáticas, poderiam constituir uma combinação – quase perfeita – para a produção, ainda que com muito esforço, de um vinho de excelente qualidade.

Reza a história que o cultivo dos primeiros bacelos de verdelho, alegadamente oriundos das ilhas mediterrânicas, terá sido promovido pelo primeiro pároco da ilha – o franciscano Frei Pedro Gigante…

A expansão da vinha foi tão rápida que, em menos de um século, o Pico já produzia muito e bom vinho!

Em consequência, chegou mesmo a limitar-se o seu cultivo para o interior da ilha, como forma de preservar a floresta, única fonte de combustível então existente.

A vinha espalhou-se por toda a ilha e com ela milhares de alqueires de paisagem de currais de pedra solta, projetados e urdidos para a proteção das videiras dos efeitos perniciosos da ventania e dos rossios marinhos.

Mas foi na costa oeste que a produção ganharia maior notoriedade – um vinho licoroso branco seco, de grande qualidade, exportado um pouco para mesas de todo o mundo, de onde se destacam as mesas dos Czares e dos Papas.

Entretanto, as pragas – primeiro o oídio (em 1852) e depois a filoxera (em 1870) – atacaram as culturas, fazendo baixar drasticamente a produção, de milhares de pipas para parcas centenas, provocando a primeira grande leva de emigração para terras americanas.

A adaptação da casta Isabela às condições edafoclimáticas da ilha e a sua maior capacidade de produção com menores custos fizeram com que o vinho de cheiro fosse ocupando, desde então, o território do verdelho, progressivamente reduzido a algumas centenas de pipas.

Em 1961, começou a funcionar a Adega Cooperativa e com o Governo Autonómico surgiram os primeiros planos de reconversão vitivinícola. Introduziram-se novas castas para vinhos de mesa e ensaiaram-se os primeiros incentivos à recuperação e reconversão das vinhas.

Não obstante, era manifesto o progressivo desaparecimento dos sistemas tradicionais de utilização do solo, designadamente a vinha em currais, o que constituía uma séria ameaça à identidade desta paisagem única.

Foi a preocupação com a salvaguarda desses valores naturais, paisagísticos e culturais que levou à criação, em 1996, da Paisagem Protegida de Interesse Regional da Cultura da Vinha da Ilha do Pico.

E foi em julho de 2004 que a UNESCO classificou a Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico como Património Mundial, na categoria de Paisagem Cultural, com uma área de 987 hectares e a respetiva zona tampão de 1.924 hectares, implantada em campos de lava e enquadrada numa paisagem de extrema beleza natural, com um conjunto arquitetónico tradicional único, no qual se destacam os currais de vinhas e de figueiras, separados pelos muros de basalto negro.

Completando-se este ano 10 anos de tão prestigiante reconhecimento internacional, o Governo dos Açores, em parceria com as forças locais, desenvolverá, a partir de hoje e até ao próximo dia 10 de novembro, um conjunto de atividades evocativas, que vamos conhecer de seguida em pormenor, das quais destaco, desde já, o colóquio programado para os dias 4 a 6 de julho, coincidindo com a data da classificação da Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico como Património Mundial.

Numa área regulada por um Plano de Ordenamento, a Secretaria Regional dos Recursos Naturais, através da Direção Regional do Ambiente, promoveu no último ano a avaliação pública e consequente alteração, adequando as opções consignadas naquele instrumento de gestão territorial às atuais condições económicas, sociais, culturais e ambientais.

Reforçaram assim os objetivos que presidiram à sua elaboração, por forma a que toda esta paisagem se transforme num dos principais polos de desenvolvimento económico e social da ilha e dos Açores.

Recordo que, na sequência da candidatura a Património Mundial, foram aprovados em 2004 os primeiros sistemas de apoio à reabilitação e à manutenção da paisagem tradicional da cultura da vinha em currais, abrangendo então apenas as áreas candidatas a Património Mundial.

Em 2008, os apoios à reabilitação e à manutenção da vinha em currais foram alargados às áreas situadas na zona tampão.

Desde a criação dos incentivos (em 2004) foram aprovadas 118 candidaturas de reabilitação, correspondendo a uma área de reabilitação de cerca de 116,5 hectares de vinha, num apoio financeiro global superior a 2,3 milhões de euros.

Em simultâneo, está contratada com 214 beneficiários a manutenção de cerca de 156 hectares de vinha, a que corresponde um apoio financeiro global próximo dos 2,4 milhões de euros.

O que, conjugado com os projetos de reabilitação em curso, assegura a manutenção, a médio prazo, de uma área superior a 240 hectares que, além do estancamento do processo de abandono das vinhas em currais, representa a duplicação da área de vinha existente na zona de intervenção (área classificada e zona tampão) e a consolidação de uma paisagem vitícola viva, com caraterísticas únicas e uma crescente relevância económica e social.

Se atentarmos à evolução das execuções orçamentais dos últimos anos, no que respeita aos apoios à manutenção e reabilitação da vinha do Pico, constatamos que a soma do executado em 2013 com o comprometido para este ano totaliza quase 1,9 milhões de euros.

As 52 candidaturas aprovadas no ano de 2013 correspondem a uma área a reabilitar de 65,72 hectares, tendo-se ultrapassado – só num ano – os 50,77 hectares de todos os projetos (66) aprovados nos nove anos anteriores (2004 a 2012).

E hoje, vamos assinar novos contratos de reabilitação referentes às candidaturas apresentadas nos últimos meses de 2013, das quais foram aprovadas 22, correspondendo a uma área de 42 hectares e cerca de 840 mil euros de apoios financeiros.

Reabilitar e dar vida à vinha do Pico é com certeza honrar a memória e o engenho dos nossos antepassados, toda uma cultura única, o que somos e nos diferencia, mas também é saber retirar proveito dessa herança e da terra, tal como eles o souberam. Aproveitando e reinventando.

Além dos vinhos produzidos no Pico, que tornam hoje a merecer distinções e prémios, o rendilhado da paisagem da vinha é um dos ex-libris turísticos dos Açores, aqui, nesta ilha, onde

“Pode escrever-se um poema com basalto
com pedra negra e vinha sobre a lava”
Aqui, onde, a nossa Alma enquanto Povo, se eleva inspirada pela grandeza da Montanha.”


Anexos:
2014.03.25-SRRN-10AnosClassificaçãoPaisagemVinhaPico.MP3
GaCS

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